Chegamos à cidade de Holambra – SP ainda na quinta-feira. Como a largada era as 4h da manhã de sábado, resolvemos chegar um dia antes para descansar bem da viagem, afinal de contas, pedalaríamos mais de 600Km. Nossas apoiadoras, Sandra e Marta resolveram dar um pulinho em Águas da Prata e Poços de Calda para fazer umas compras de queijos, doces e visitar a família da Marta.
O desafio consiste em percorrer o percurso de 600Km no tempo máximo de 40h. Quem conseguir, vence. Não importa se chegou primeiro ou último. O desafio é individual.
Edmilson e eu passamos a sexta-feira descansando e nos concentrando para a prova que já sabíamos que seria muito dura, haja vista a alta temperatura e a sensação de ar abafado que estávamos sentindo na véspera. Não seria fácil. Decidimos deitar cedo para acordar às 2h da manhã, tomar “café da manhã” e ficar prontos para a largada.
De fato, a largada ocorreu no horário previsto. Os dezesseis atletas partimos rumo a cidade de Porto Ferreira, distante 125Km de Holambra, onde na metade do percurso teríamos o primeiro posto de controle (PC1).
No horário da largada obviamente ainda era noite, e a temperatura um pouco abaixo do ideal, ou seja, estava friozinho. Mesmo assim decidimos partir com roupa de verão, pois sabíamos que assim que o sol nascesse a temperatura iria subir.
Lá fomos nós rumo ao PC1, pedalando em grupo, os 16 ciclistas não afrouxaram a pressão nos pedais. O ritmo foi bem alto para a distância que estávamos dispostos a pedalar. Fechamos o PC1 com uma média de 25,5Km/h, logo ao amanhecer de sábado. Alguns atletas descansaram pouco mais de cinco minutos e já partiram sem perder tempo. Edmilson e eu descansamos uns dez minutos e também partimos. O grupo pedalou unido somente até aqui. De agora em diante, cada um vai seguir o seu próprio ritmo.
Edmilson e eu decidimos avaliar a situação e colocar o nosso plano de ação em prática. Percebemos que teríamos que baixar um pouco o ritmo, senão, fatalmente sentiríamos no final. A esta altura também nos demos conta da intensidade das subidas do percurso, então optamos pela estratégia de pedalar bem suave nas subidas e soltar tudo nas descidas.
No decorrer do trajeto, observamos alguns atletas que estavam “esbanjando” energia nas subidas, outros acompanhando atletas com ritmos diferentes, mas nós não nos deixamos levar pelas emoções. Mantivemos a cabeça no lugar e nos mantivemos pedalando dentro da nossa estratégia.
Nesses momentos que vemos outros atletas andando mais rápido, o nosso instinto competitivo também nos leva a querer andar mais, mostrar força, acompanhar os teoricamente “mais fortes”, mas em uma prova longa como esta, não podemos nos deixar influenciar por esses pensamentos errôneos. Concluímos que as duas palavras que resumiriam a prova são: paciência e economia.
Chegamos ao PC2 (125Km rodados). Lá encontramos o pessoal da organização que nos esperava com istônicos, água, frutas e sanduiches. O calor já estava intenso, e vimos alguns atletas já meio desgastados. Descansamos dez minutos no máximo, nos alimentamos, reabastecemos as caramanholas e partimos para o PC3.
As subidas e descidas eram constantes, sem trégua. O calor já estava chegando ao seu pico máximo. De vez em quando uma nuvem aliviava os raios solares, mas logo éramos castigados novamente pelos raios do astro rei. Neste trecho do percurso alcançamos o Ivan Rolim, que parecia bem cansado e abatido. Passamos por ele. Logo em seguida chegamos ao PC3, onde aproveitamos para descansar um pouco mais do que nos PCs anteriores. Também tivemos que aguardar um pouco a chegada das nossas apoiadoras Marta e Sandra, pois tiveram um pouco de dificuldade para chegar.
Partimos para os últimos 58Km do primeiro trecho. A esta altura o calor alcançava seu máximo. As subidas também ajudavam a minar a resistência e aumentar o cansaço. Para diminuir a ação do calor, pedalamos com um saco de gelo no pescoço. Faltando duzentos metros para chegar ao hotel (sim, 200 METROS) encontramos um atleta esticado debaixo de uma árvore. Paramos para ajudá-lo, pois estava com câimbras nas duas pernas e não conseguia mais pedalar. Foi impressionante ver a musculatura das duas coxas pulando como se estivessem recebendo choques elétricos. Infelizmente, foi o fim da prova pra ele.
Assim chegamos ao PC4, de volta ao hotel em Holambra. Já havíamos completado 250Km, e a nossa estratégia agora era tomar um banho, comer e descansar uma hora e meia para partir para a última etapa do dia: 75Km até a cidade de Rio Claro e voltar ao hotel em Holambra, totalizando 150Km da segunda etapa e 400Km totais rodados.
Conforme o previsto, lá pelas 18h30min de sábado partimos para o segundo trecho de 150Km. A temperatura já estava bem mais agradável, mas teríamos que enfrentar um pedal noturno na rodovia Washintong Luíz, lotada de caminhões e automóveis. Logo na primeira hora de pedal o Edmilson furou o pneu traseiro, mas foi tranqüilo. Efetuamos a troca e prosseguimos. Passamos pelas cidades de Artur Nogueira, Engenheiro Coelho, Limeira, Cordeirópolis, Santa Gertrudes e finalmente Rio Claro. Este trecho nos preocupava a todo momento, pois percebíamos que estávamos descendo mais e subindo menos, ou seja, a volta seria mais pesada ainda.
Encontramos o pessoal da organização no estacionamento da rodoviária de Rio Claro, onde tomamos um copo de Gatorade e decidimos voltar, afinal, tínhamos que encarar a subida de volta. 10h20min partimos rumo a Holambra. O que nos animava era que estávamos voltando para o Hotel (fechando 400Km) e tínhamos programado um banho, comida e descanso de 3h! Extremamente animador, não é?
Chegamos ao hotel às 3h da manhã de domingo, uma hora atrasados de acordo com a nossa programação, mas foi bem justificado pelas subidas, a escuridão e o cansaço. A Marta tinha preparado uns frangos empanados que estavam uma delícia! Comemos sanduíches de frango com queijo, coca-cola e sobremesa! Sim. Elas tinham comprado Curau em Águas da Prata.
Devidamente higienizados e alimentados, descansamos as três horas mais rápidas da minha vida. Foi um piscar de olhos e já estávamos de pé novamente, devidamente trajados para encarar um café da manhã e os últimos 200Km do desafio.
Exatamente as 7h15min de domingo partimos rumo à cidade de Casa Branca, onde estava localizado o PC dos 500Km. Este trecho foi talvez o mais difícil, pois além das subidas longas, o sol e o calor de mais de 42º , tínhamos agora um vento contra que nos fez chegar ao PC às 13h. Quase seis horas para percorrer 100Km. Isso nos deixou preocupados, pois ainda tínhamos a volta e teríamos que chegar antes das 20h, que era o horário limite. Como de costume, nos alimentamos, abastecemos água e tratamos de dar meia volta rapidinho pra não perder tempo.
Partimos para os últimos 100Km. Por sorte, o vento contra da ida agora estava a nosso favor, o que nos fez recuperar energias e manter uma boa velocidade de deslocamento. Chegamos a andar a 35Km/h numa boa, mas ainda mantínhamos a estratégia de poupar energia nas subidas e dá-lhe saco de gelo na nuca. Faltando uns 30Km para o final, observamos uma tempestade se formando. Como não estávamos afim de tomar chuva, resolvemos apertar um pouco o passo no final, mas a esta altura já estava tudo resolvido.
Assim, às 18h30min de domingo tivemos a felicidade de completar o audax 600 de Holambra. Quinze minutos depois despencou um temporal.
Completar uma prova de 600Km exige um ótimo preparo físico, sim, mas também requer um preparo psicológico maior ainda. O atleta deve ser capaz de segurar seus impulsos competitivos e manter uma intensidade baixa de pedalada, ainda que seu organismo o estimule a aumentar o ritmo. A falta de moderação pode “quebrar” o atleta, como aconteceu com vários desistentes nesta prova. Tenho certeza que eles estavam fisicamente capacitados para completar a prova, mas falharam na sua estratégia.
O colega citado acima, que estava debaixo de uma árvore, nós o vimos diversas vezes desperdiçar energia nas intermináveis subidas do percurso. Deu no que deu. Também observamos ciclistas tentando seguir o ritmo de outros colegas e também quebrarem no meio da prova. Não adianta. Você deve conhecer e reconhecer o seu ritmo particular, estipular e manter uma estratégia de pedalada que possibilite concluir o desafio dentro do tempo especificado. Quem consegue aliar paciência e economia tem grandes chances de vencer o desafio.
Outro destaque foi a organização do evento. Realmente foi impecável. Sempre atenciosos, o pessoal da organização deu um show. Parabéns pra eles.
Também quero registrar aqui o agradecimento ao apoio concedido pela Marta e Sandra, que estiveram a postos o tempo inteiro. E olha que não é fácil apoiar dois malucos em uma prova de quase 40 horas e 600Km.
E agora?
Que venha a série 2011. Eu quero ir pra França completar os 1200Km do Paris-Brest-Paris.
Vamos?
Parabéns Flavio e Edmilson!
ResponderExcluirbora para o Paris-Brest-Paris!
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